outubro 27, 2011

"CONTRUÇÃO"_uma interpretação




“construção”Chico Buarque                                 “oposição”

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

   
  

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo






Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público




Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado




A repressão da ditadura traz a incerteza do amanhã. O indivíduo, neste enquadramento social, político e cultural sente-se privado da liberdade de viver e de se expressar (passo tímido). Enche-se de coragem e fôlego para (re)agir com a capacidade de construção que tem uma máquina. Reveste-se de força (paredes sólidas) para, passo a passo, conquistar espaço, direito à expressão e resistir ao sistema instalado.
 Há uma comoção no seu olhar mas descansa e saboreia o banal (feijão com arroz). Não sabe como se movimentar.
Há um misto de necessidades, sobrevivência ao contexto real pelo mais elementar e o que alimenta o sonho (céu), a liberdade (flutuou … pássaro) de expressão, de beber a cultura. Mas está forçado a fazer algo que não concorda (Morreu na contramão atrapalhando o tráfego)



Há um sentido profundo do valor do essencial da vida apesar de se movimentar com dúvida.
Teve a coragem de se manifestar contra o sistema (subiu a construção) como se nada o pudesse derrubar (fosse sólido) na ilusão (paredes mágicas) do que pode vir a conseguir (desenho lógico). O seu olhar mostra-se confuso, mas, senta-se com a convicção de que vai valer a pena, trazida pela sensação de Príncipe.
Por enquanto, até acharia o máximo qualquer coisa que se conseguisse, mesmo a mais corriqueira como “feijão com arroz”.

Neste momento, a inércia instala-se e começa a mecanizar os seus gestos mais elementares, os voluntários e os involuntários, como beber e o soluçar. A incerteza do amanhã permanece. Dança e gargalha como se fosse o próximo a ser totalmente engolido pela repressão política e o mau estar social e cultural.
Mas ainda persiste a esperança (e flutuou no ar como se fosse sábado) como ideia de fundo, ainda, antes do naufrágio.



No final, já não sente, não pensa, movimenta-se “como se fosse máquina”, já sem forças para lutar. As paredes já são flácidas.
O indivíduo é levado à alienação para conseguir viver, mas, morre! Esta morte simbólica é a da esperança esmagada pela repressão, contudo, não deixou de ser um contramão! “atrapalhando”, tornando incómodo o que se queria silenciado.

ÉTICA AMBIENTAL, ECONOMIA, DIREITO E POLÍTICA: QUE RELAÇÃO?

Falar de ética é algo que se reveste de alguma complexidade e, como já se constatou em anteriores estudos, é um conceito de difícil definição.

No entanto, e grosso modo, penso que será aceitável dizer-se que, no mínimo a Ética se traduz num conjunto de preceitos, valores e atitudes tidas como base de aceitação e entendimento/perspectiva de uma determinada realidade para um determinado grupo de pessoas (grupo social; grupo profissional; população de uma nação; organismos internacionais, etc.) e, que lhe orienta e direcciona a sua conduta e comportamentos.

Tomando este conceito por base, poderemos então dizer que a Ética Ambiental se traduz num quadro de referências e valores quanto ao papel do Ambiente, sua preservação e conservação, que pautará as acções e conduta das pessoas.

Sendo assim, e porque Economia, Direito e Política são disciplinas complementares e indissociáveis, que papel terá a Ética Ambiental no seio da interacção entre essas três faces de uma mesma realidade?

Eis outra questão que, muito provavelmente, não tem uma resposta objectiva, definitiva e concreta. Toda a literatura sobre esta temática é, apenas nisso, unânime. O Globo encontra-se, ainda, numa fase embrionária de dissecação de qual o papel da Ética Ambiental naquilo que vai sendo a prática económica e dos quadros/dispositivos normativos e perspectivas e acções políticas, no sentido de uma ideia e base comum de compreensão e comportamento ambientalmente ético.

No entanto, há já sinais evidentes da existência, se não de uma Ética Ambiental, de acções/políticas que visam a orientação e estabelecimento de uma ordem social política e ambientalmente mais consciente. Disto é exemplo a cada vez maior preocupação dentro do tecido empresarial mundial, de integração no funcionamento e organização das empresas, formas mais responsáveis tanto ao nível social como ambiental.

Nascem novos conceitos como o de RSE – Responsabilidade Social Empresarial, definido em 2001 pela Comissão Europeia “serve de base às empresas, para integrar voluntariamente as questões sociais e as questões ambientais nas suas actividades empresariais e nas relações recíprocas com os stakeholders” estes entendidos como os funcionários, clientes, fornecedores e investidores.

A importância deste e de outros conceitos similares, é de tal forma grande e crescente que são os próprios administradores das empresas a tecer considerações tais como: “(…), a RSE fomenta os negócios” palavras proferidas por Lothar Meinzer, chefe do Centro de Sustentabilidade do grupo económico da área química BASF. “Somos dependentes de um ambiente intacto, assim colaboramos para fortalecer e desenvolver este ambiente”, acrescenta. De salientar que esta empresa foi, em 2008, agraciada com o prémio de fornecedora ecológica da indústria automobilística.

Há quem vá mais longe e diga que a RSE é a via para uma coordenação entre o sector económico, a sociedade e a política. Esta responsabilidade tende a incutir uma maior consciencialização do papel do Ambiente e, de uma “Ética” comum, na alavancagem da Economia e, da consequente pertinência da existência de quadros normativos e dispositivos legais (Direito) que suportem uma POLÍTICA de Sustentabilidade.

Actualmente, já não é tão fácil a actuação sem regras e ad hoc  para se sobreviver numa economia de mercado tão globalizada e interdependente como é a vigente. O surgimento do Comércio Justo é a consequência de uma realidade social mundial mais esclarecida, consciente de que o lucro das empresas não pode ser obtido à custa e resultado do sacrifício de bens comuns, consequentes de acções como o desflorestação das florestas, a utilização de materiais poluentes e perigosos para o ambiente, exploração de mão-de-obra infantil e/ou escravizada, etc.

É cada vez mais comum e prática corrente a existência de cláusulas contratuais entre as empresas e os seus parceiros de negócio (ex: fornecedores) de observância de procedimentos e formas produtivas responsáveis e sustentáveis (ex: não utilização de substâncias poluentes; certificação do processo produtivo; etc.).

A um nível de análise micro, a evolução no pensamento e comportamento do consumidor é um facto e notória e, se assim podemos falar, reflecte já uma “ética ambiental”. Antes de comprar, o consumidor procura informar-se sobre a realidade responsável das empresas produtoras, no respeitante às acções sociais e ambientais das mesmas, e o que é a sua contribuição na tripla dimensão da equidade social, da preservação ambiental e da segurança económica.

Há uma nova ética no consumo. Como nos diz o Dr. Beja Santos (Direcção Geral do Consumidor), no seu artigo “Economia Social e consumo ético: Desafios e Oportunidades numa sociedade em rede”, “O consumidor individualista continua à procura do «bom, bonito e barato» mas não são poucos os que se dizem prontos a pagar um produto mais caro, desde que ele introduza mais ética e solidariedade.”

Por tudo isto, penso que é inevitável que, qualquer que seja a realidade social em análise, o funcionamento da Economia seja enquadrada por leis, normas e regulamentos (Direito) oriundos de uma Política que reflicta o novo paradigma ambiental (“ética ambiental”) em que se vive: “Não basta a economia ser limpa, se ela não dispuser de cidadãos responsáveis nos planos social e ambiental; não há equidade se não se reduzir e reorientar o consumo global; a consagração da plena utilização dos bens e serviços é sinónimo de consumo responsável, em que o pleno rendimento da utilização dos bens se baseia na ecologia e na equidade; (…)” [Dr. Beja Santos, in artigo citado].

Em jeito de conclusão, parece-me que mais do que interface entre a Economia, o Direito e a Política Ambiental, a Ética Ambiental é a base de interacção e da dinâmica entre essas disciplinas e, as mesmas, são espelho da sua existência.

BIODIVERSIDADE


Do ponto de vista da paisagem a biodiversidade é fundamental para assegurar a preservação dos sistemas vivos, quer estes resultem das condições naturais dos lugares quer resultem das actividades humanas/dos sistemas produtivos. E a título de exemplo, lembro as comunidades de cegonha (Ciconia spp) que estão associadas às zonas de cultivo de arroz (Coimbra, Coruche) ou aos campos abertos e várzeas que lhe garante alimento.
É um parâmetro sobretudo qualitativo e não quantitativo. Pretende garantir a riqueza biológica dos vários ecossistemas existentes para que estes se mantenham estáveis e em equilíbrio, respeitando impreterivelmente as suas dinâmicas e circulações de fluxos (inputs energéticos, migrações, ciclos vegetativos, maior ou menor grau de dependência do Homem, presença de água, etc.). Desde a fauna microbiana do solo ao grande carnívoro - Homem, da flora autóctone às comunidades de exóticas, da influência de factores (bio)físicos aos climatéricos, entre outros componentes ambientais e humanos, interessa a salvaguarda do conjunto.

Quando Araújo, M. (1998), no seu texto “Avaliação da biodiversidade em conservação” expõe as várias metodologias e perspectivas segundo as várias especialidades/áreas de actuação, parece-me óbvio a aparente falta de consenso dado que as perspectivas se inserem em diferentes escalas de actuação. Contudo, penso que todas elas concorrem para o interesse da preservação das espécies, ainda que seja por razões da sua raridade, representatividade, variabilidade genética e/ou outras existências causais com o meio, por exemplo.

A meu ver, interessa que sobressaia o valor da biodiversidade para o equilíbrio global do nosso planeta, perspectiva que Lovejoy (1996) nos presenteia de forma integrada.

Bibliografia:
Araújo, M. (1998), Avaliação da biodiversidade em Conservação, Silva Lusitana 6(1). 19-40 EFN, Lisboa, Portugal
Lovejoy, T.E. (1996), Biodiversity: what it is?, in Biodiversity II, Cap.2, pp. 7-14, (ed desconhecido)

outubro 25, 2011

A LÓGICA DA BATATA

Qual é efectivamente a importância das batatas?

Focando-nos no tema –BATATA, de imediato remetem-nos para alguns tópicos:

(BIO)DIVERSIDADE genética.

AGRICULTURA / ECONOMIA – A agricultura é um sector de actividade económica que enfrenta sempre grandes problemas nas políticas económicas e sociais nacionais e internacionais dos países. Em termos de mercado, actualmente, a procura mundial de produtos transformados leva ao crescimento da indústria de produtos derivados transformados e desidratados na qual a batata também se inclui.
Os seus ciclos curtos (15 semanas) e a produção em grande escala com elevadas produtividades são vantagens que reduzem a competitividade com outras culturas.

NUTRIÇÃO – A batata é considerada uma das culturas mais importante na dieta alimentar mundial apontada pela FAO como contribuição potencial na luta contra a fome e a pobreza.
Em Portugal, veio substituir a castanha na dieta alimentar diária, há pouco mais de um século.

GASTRONOMIA / TURISMO / CULTURA – detentora de um manancial cultural a batata é promotora de lugares, regiões e países. As famosas batatas a murro, a batata frita à Inglesa, as batatas tão típicas do cozido à Portuguesa Açoriano (furnas), Tortilla de Patata Espanhola e o Bolo do Caco Madeirense (batata-doce) são algumas das iguarias a ela associadas prontas a deliciar os mais diversos paladares.

AMÉRICA de onde ela é originária (ANDES) e cultivada há mais de 8 000 anos

PORTUGAL – são os portugueses que trazem a batata-doce para a Europa. Mas curiosamente a batata na Europa começa por ter carácter ornamental só mais tarde é que entra na dieta alimentar animal e humana.


Que relação com a sustentabilidade?
 

Podemos iniciar esta relação com o fomento da AGRICULTURA BIOLÓGICA enquanto prática agrícola de maior equilíbrio com a Natureza. O recurso a técnicas tradicionais de cultivo, onde se inclui, por exemplo, o sistema de rotação de culturas é outra medida importante para evitar o esgotamento e a delapidação dos solos.
Por outro lado, a não utilização de fertilizantes diminui a concentração de Nitratos e consequentemente evita a contaminação dos aquíferos, por lixiviação destes.

PROTECÇÃO INTEGRADA substitui a Luta Química ou pelo menos reduzirá a aplicação de insecticidas no combate a pragas e doenças, diminuindo seguramente alguns efeitos secundários no ambiente e saúde humana.

GESTÃO DE ÁGUA – A questão da água na agricultura é pertinente. A principal medida de sustentabilidade é a adaptação das culturas ao meio.

Quanto às políticas europeias relaciono-a com a PAC. Dentro da Política Agrícola Comum os subsídios são atribuídos para a produção de batata-semente e a fécula de batata com cada vez maior importância na industria não-alimentar.

O actual QCA contempla verbas para o fomento da Agricultura Biológica independentemente da cultura em questão.

E, ainda, quanto à batata, podemos dizer que o próprio nome inscreve a lógica para um cultivo sustentável:
Boas práticas Agrícolas e Técnicas culturais Adequadas em Terrenos de elevada Aptidão para o seu cultivo.

agosto 29, 2010

DIREITOS DA ÁGUA

A água é um maiores bens da Terra e da Humanidade e a sua escassez é um problema ambiental complexo que coloca em risco toda a diversidade da vida, e origina, em efeito dominó, uma panóplia de problemas sociais (de fome, violência, guerra), saúde (doenças de carência e epidémicas), económicos (pobreza) e políticos (de gestão, e.g.).


É uma questão que não conhece fronteiras!

No início do ano 2000, a população de Cochabamba, na Bolívia, teve que se insurgir quanto ao processo de privatização do fornecimento das suas águas, por uma empresa americana, e, dessa manifestação foi elaborada uma declaração para a sua protecção que deixo aqui transcrita por considerar de grande importância o seu conteúdo.

Declaração de Cochabamba

Pelo direito à vida, pelo respeito pela natureza e pelos costumes e tradições dos nossos antepasados e povos, para todo o sempre o seguinte será declarado como direitos invioláveis, no que respeita à utilização da água que a Terra nos dá:
  1. A água pertence à Terra e a todas as espécies e é sagrada à vida, pelo que a água do mundo tem de ser preservada, defendida e protegida para as gerações futuras e respeitados os seus padrões naturais.
  2. A água é um direito humano fundamental e um bem público a ser protegido a todos os níveis do governo, pelo que não deve ser transformado em bem de consumo, privatizado ou transaccionado com fins comerciais. Estes direitos devem ser sagrados em todos os níveis governamentais. Em especial, um tratado internacional deve garantir a inquestionabilidade destes príncipios.
  3. A melhor protecção da água é realizada pelas comunidades dos cidadãos locais, que devem ser respeitados como parceiros iguais aos governos na protecção e regulamentação da água. Os povos da Terra são o único veículo na promoção da Terra e na poupança da água.

a ver, também: CARTA EUROPEIA DA ÁGUA (Estrarburgo, 6 MAIO 1968)

ILITERACIA CULTURAL

- um problema à delapidação do património natural e paisagístico

O desconhecimento dos valores da biodiversidade e da geodiversidade e/ou da sua importância como contributo fundamental para o Homem e para os vários sistemas vivos, e.g., podem originar situações que, in extremis, podem chegar à dizimação de um património único.

No âmbito da iliteracia, incluem-se, e.g., as recolhas de amostras geológicas e de vegetação para fins não científicos, dado que se considera que só o verdadeiro desconhecimento do valor dos objectos em causa (fósseis, pedras ou minerais) justifica um comportamento que conduz à destruição deste legado da Terra e que o Homem, até muito recentemente, soube em conjunto construir, respeitar e preservar.

O problema não está no usufruto e utilidade deste património do qual o Homem pode beneficiar, o problema está em não saber utilizá-lo correctamente!

agosto 07, 2010

DO RECURSO À ECOLOGIA

A Ecologia entrou na nossa linguagem por via da ciência para melhor compreedermos os processos biológicos de interdependência dos organismos (enquanto indivíduo) entre si e com o meio! Parece, no entanto, que a ideia generalizada no nosso colectivo, posiciona esta ciência na relação directa com a Natureza e exclui o Homem. Ou melhor, posiona o Homem ao comando de todos os sistemas naturais (o que não deixa de ser uma mera ilusão) como que se este estivesse de fora dos mesmos processos biológicos! Assim, falamos que é necessário preservar os habitats e os ecossistemas para salvar a Biodiversidade do Planeta como se não se tratasse da nossa própria sobrevivência! O momento actual é o de congregarmos os mais diversos esforços em prol da preservação da Biodiversidade, ou de pelo menos Travar a sua Perda (EU), mas, ainda, temos um longo caminho a percorrer!

O que poderemos, então, nós aprender com a Ecologia e que servirá ao processo de salvaguarda e conservação da diversidade da vida? Haverá ou não necessidade de uma Ecologia Humana? De que forma a que a podemos colocar em prática?

A primeira noção de ecologia que devemos assimilar é a de Pirâmide Ecológica (PE), onde é possível compreender a estrutura do nosso próprio habitat (Terra) e os seus fluxos de energia e matéria em que se baseia (cadeia trófica). Leopold (1949) diz-nos que a consciência ecológica estabelece-se quando o Homem perceber onde se situa nessa cadeia trófica e verificar que é totalmente dependente das camadas inferiores dessa pirâmide. Aí, estará apto a atibuir valor aos demais seres e diferentes formas de vida (valor intrínseco) iniciando-se desta forma o seu processo de expansão de consciência!


Fundamental associar a todo este sistema de fluxos (PE) o conceito de Equilíbrio. Saber que se caracteriza por ser: dinâmico no espaço-tempo; continuum (e não é um ponto); comporta elevada funcionalidade e grande estabilidade; e, que beneficia com a complexidade do sistema, ou seja, quanto maior for a diversidade de espécies em presença. Ainda, podemos inferir que este equilíbrio depende(rá) necessariamente de factores internos e externos o que desde logo nos deverá despertar para a necessidade de "cuidar" das nossas acções de modo a não perturbar esse equilíbrio!

Estaremos então, perante a fórmula necessária para contribuir para a preservação da biodiversidade: sair de uma visão antropocêntrica e passar para uma visão biocêntrica, em que o valor da vida se "iguala"; e, promovermos o equilibrio do TODO (do individuo e do meio) através da vigilância da acção!

Naess (1912-2009), filósofo contemporâneo, propõe-nos fazer uma aproximação mais profunda e mais espiritual à Natureza (Movimento da Ecologia Profunda - 'Deep Ecology'), devendo para isso sermos mais abertos a nós próprios e à vida não-humana que nos rodeia, questionando-nos profundamente.

"Life is fundamentally one ... The deep ecology movement is the ecology movement which questions deeper... The adjective 'deep' stresses that we ask why and how, where others do not." Arne Naess.

Precisamos então de desenvolver uma Ecologia Humana que permita ao Homem uma melhor integração na Natureza e à construção de uma sociedade mais sã e mais responsável, que nos conduza ao desenvolvimento sustentável, à perenidade dos sistemas e à continuidade das condições que permitem a existência das diferentes formas de vida, incluindo a Humana, mantendo a estrutura da Pirâmide e o Equilíbrio dos (eco)sistemas estavéis.

Quanto à prática, bastará que cada UM se proponha a vigiar-se, questionando-se, por outro lado, "em profundidade" para saber se em cada momento a sua acção e o seu pensamento estão também eles em equilíbrio com o TODO!

janeiro 04, 2010

PENSAR a Natureza ...

2010 celebra o Ano Internacional da Biodiversidade alertando para a importância da DIVERSIDADE na UNIDADE. A data estabelecida pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) para salvar a biodiversidade, designada por COUNTDOWN 2010, aproxima-se e os trabalhos de inventariação da biodiversidade do nosso país, ainda vão no seu início! Já em Maio está prevista a apresentação desses relatórios!

Mas afinal o que queremos (ou é importante) salvar? a Natureza ou a Humanidade? Talvez Thoreau clarifique, um pouco, o que possa estar verdadeiramente em perigo !?

"A Natureza não põe nenhuma questão, nem sequer responde ao que nós mortais perguntamos. Há muito que ela tomou a sua decisão."

Thoreau, Henry D., (1854) Walden ou a vida nos bosques, pp 309.

novembro 09, 2008

TENDÊNCIAS RECENTES E CORRENTES DA BIODIVERSIDADE


. Decréscimos de biodiversidade em todo o mundo habitável
. Elevados níveis e contínuo aumento de extinção de organismos
. Declínio das populações e habitats a nível local
. Transformação de todos os ecossistemas da Terra pela acção humana, como é o caso da conversão do uso do solo em searas em 20 a 50% de 9 em 14 biomas globais. Se por um lado as terras cultivadas fornecem muitas provisões (grãos, frutos e carne) por outro lado a conversão dos solos em áreas agrícolas leva tradicionalmente à redução da biodiversidade autóctone.
. Desaparecimento de 35% dos mangues, em duas décadas
. Desaparecimento de 20% dos recifes de coral estando outros 20% altamente degradados
. Alterações rápidas nos ecossistemas terrestres, ocorridas na bacia Amazónica e o SE Asiático com forte desflorestação e expansão de searas, na Ásia com a degradação do solo em zonas de baixa fertilidade e Bangladesh, Vale Hindu, partes do Extremo Oriente e Ásia Central e os grandes Lagos da região Este Africana.

AMEAÇAS À BIODIVERSIDADE

Millennium Ecosystem Assessment (MA) refere os factores antropogénicos como dominantes na mudança dos padrões globais da biodiversidade em oposição aos factores naturais. Nestes factores de influência indirecta incluem-se índices demográficos, económicos, sócio-políticos, culturais, religiosos, científicos e tecnológicos.

O consumo crescente dos serviços dos ecossistemas leva a um crescimento populacional e por sua vez a um crescimento do consumo per capita. O factor cultural condiciona a visão do mundo o que influência as preferências de consumo e conservação levando a acções mais e menos apropriadas. Isto provoca uma elevada pressão nos ecossistemas e na biodiversidade.

As espécies que estão em maior declínio, consequência dessas acções, tendem a ser repostas e substituídas por um número significativamente menor de espécies em expansão, o que resulta em ambientes humanamente alterados. Ou seja, assiste-se a uma maior homogeneização da biosfera caracterizada por uma menor diversidade de espécies à escala global.

Exemplo disso é o decréscimo global da diversidade genética ao nível das espécies vegetais e animais domesticados nos sistemas agrícolas, provocado pela intensificação desses sistemas, pela especialização dos viveiristas e pelos impactos harmonizadores da globalização, como é o caso dos milhos transgénicos.

As alterações climáticas são também consequência da acção do Homem, contudo, o seu efeito no ambiente é directo para a perda da biodiversidade. Isto é, se a acidificação das águas e dos solos resulta da elevada concentração de poluentes do ar, por via da industria, tráfego automóvel e outras emissões urbanas, provocando a ocorrência de chuvas ácidas (por via do ciclo hidrológico) reflectindo-se em alterações significativas das condições ambientais dos ecossistemas (p. ex. alteração de pH) e inevitável perda de diversidade biológica.

No respeitante ao fenómeno do aquecimento global, o que se tem verificado, regionalmente, enquanto impactos significativos são:
. mudanças na distribuição das espécies,
. alterações no tamanho das populações,
. alterações no tempo de reprodução e migração das espécies,
. aumento da frequência de registo de doenças e pestes.

Neste sentido, o Painel Governamental para as Alterações Climáticas aponta como prováveis cenários
. aumento da temperatura média global na superfície terrestre entre 2 a 6,4ºC até 2100;
. aumento da incidência de cheias e secas;
. aumento do nível do mar, de 8 a 88cm, entre 1990 e 2100.

Qualquer um destes cenários projecta, globalmente, mais impactos negativos sobre os ecossistemas e respectivos serviços, que os benefícios que algumas regiões geográficas poderão colher. Isto significa, que se verificarão efeitos adversos nos serviços-chave dos ecossistemas tais como:
. o fornecimento de água potável,
. o fornecimento de alimento e energia,
. a manutenção do ambiente saudável,
. a conservação dos sistemas ecológicos e sua biodiversidade
. conservação de bens e serviços ecológicos associados.

Ainda, resultante das Alterações Climáticas parece ser inevitável:
. aumento do risco de extinção das espécies,
. decréscimo da quantidade e qualidade de água nas zonas áridas e semi-áridas,
. aumento do risco de cheias e secas,
. decréscimo, em certas regiões, do período de produção de biomassa e da força hidráulica,
. aumento de epidemias de malária, dengue e cólera em muitas regiões do globo,
. mortalidade devido ao calor,
. ameaças de decréscimo nutritivo de outras regiões a par de problemas traumáticos graves e morte,
. decréscimo da produção agrícola nas regiões tropicais e sub-tropicais,
. impactos adversos na pesca.

Segundo os estudos efectuados concluiu-se que os impactes dos factores directos de mudança na biodiversidade são constantes ou crescentes. Como factores directos ainda, se integram: a alteração do uso do solo, a alteração do curso dos rios, a extinção dos recifes de coral, os estragos nas plataformas marinhas devido à pesca de arrasto, a introdução de espécies invasoras, a sobre-exploração das espécies e a poluição.

São inúmeros os exemplos que ilustram a influência destes factores na biodiversidade e na alteração de habitats.

Em Portugal, a floresta viu o seu potencial biológico reduzido pela substituição do carvalhal (Quercus sp) por eucalipto (Eucaliptus globulus) o que se traduz na inibição do crescimento do sub-bosque e na consequente perda de alimento e abrigo para muitas espécies. Ao nível do solo dá-se, ainda, um empobrecimento e até delapidação deste recurso, uma vez que deixa de haver manta morta (m.o) e esgotam-se as reservas subterrâneas de água. A transformação da qualidade visual da paisagem é muito significativa.

Outras espécies exóticas, como a Austrália (Acacia melanoxylon) e a Acácia mimosa (Acacia dealbata) dominam sobre as nossas espécies autóctones limitando o seu desenvolvimento. A sua erradicação é uma luta incessante.
Ao nível da pesca e dos recursos marinhos muitas espécies encontra-se em risco de extinção pela sobre-pesca e/ou pela pesca acima dos níveis máximos sustentáveis. Aliás, todos os oceanos vêem quase esgotados os seus stocks de pescado, que o diga o nosso bacalhau (Gardus morhua)!
OUTRAS NOTÍCIAS
A IUCN, no seu relatório de 2004, referiu que, apenas, 15.589 espécies estavam ameaçadas de extinção, após a avaliação de 40.177 espécies (entre as 1,9 milhão que foram identificadas no mundo).

Na "lista vermelha" de 2006 estão 16.119 espécies de animais ou de plantas ameaçadas de extinção, o que, segundo os analistas da IUCN, "inclui um em cada três anfíbios e 25% das árvores de coníferas do mundo, além de uma em cada oito aves e um em cada quatro mamíferos".

Achim Steiner, director-geral da organização, declarou que “A Lista Vermelha de 2006 mostra uma clara tendência: a perda de biodiversidade aumenta, não diminui", alertando que essa situação tem "um grande impacto" na produtividade e na capacidade de recuperação dos ecossistemas.

Em relação ao Mediterrâneo, o relatório aponta a região como um dos 34 focos críticos de biodiversidade do planeta, com cerca de 25 mil espécies de plantas, das quais 60% não são encontradas em qualquer outro lugar do mundo.

A principal ameaça à vida silvestre dos desertos é a caça ilegal, seguida da degradação do habitat.

A organização acrescentou que a situação das espécies de água doce não é muito melhor e que 56% dos 252 peixes de água doce endémicos do Mediterrâneo estão ameaçados de extinção.

A IUCN lembrou que, além de ser uma importante fonte de alimentação, os ecossistemas de água doce são essenciais para obter água potável e para o saneamento.
CURIOSIDADES
O bacalhau é um peixe de águas frias do Atlântico Norte e do Círculo Polar Ártico - Noruega, Terra Nova, Islândia, Canadá e Alaska. Cada fêmea põe, por ano entre 4 a 6 milhões de ovos Contudo, só cerca de 1% sobrevive e chega à fase adulta. Aos dois anos o bacalhau já tem 50 cm. Vive perto de 20 anos, altura em que atinge 1,5m e chega a pesar 50 Kg.

Em 2000 o bacalhau foi incluído na lista de espécies ameaçadas pelo WWF (World Wide Fund for Nature), que publicou um relatório informando que o bacalhau havia diminuído em 70% nos últimos 30 anos e, se essa tendência continuasse, os stocks mundiais de bacalhau desapareceriam em 15 anos.

novembro 02, 2008

O VALOR DA BIODIVERSIDADE


BIODIVERSIDADE = DIVERSIDADE BIOLÓGICA => DIFERENTES FORMAS DE VIDA, em que cada uma tem um papel e funções específicos no ecossistema onde se insere.

Logo, se falamos em VIDA, como lhe atribuir um valor? Consequentemente, como valorar quantitativamente a biodiversidade?

Não sendo uma tarefa fácil, e muito provavelmente, difícil de ser conseguida, o que parece importante na análise a efectuar é a concretização do paradigma “Acting Local, Thinking Global”. Ou seja, para chegarmos a um valor da biodiversidade, é necessário ter sempre uma visão integrada e global sobre as interacções entre os ecossistemas, respectivos serviços e o Bem-estar humano e factores, directos e/ou indirectos, sobre a biodiversidade.

Quando pensamos na Floresta Amazónica, por exemplo, não é possível individualizar a sua exploração das mudanças que causa ao nível das várias escalas –local, regional e planetária, quer estejamos a falar do aprovisionamento para as espécies que dela dependem, da regulação hídrica e climática, do recreio e turismo, quer falemos nos factores indirectos -como a economia, a demografia, a cultura, a tecnologia e ciência, e/ou factores directos como sendo a alteração imediata significativa na imagem/cenário deste território pela alteração do uso do solo.

Qualquer acção de intervenção local deve ter sempre em consideração o seu “Efeito Borboleta” na dimensão global e, por seu turno, as concepções/politicas globais não pode esquecer e negligenciar as características e especificações locais.

Os ecossistemas e respectivos serviços representam um bem capital de um país pelo que, os seus benefícios só poderão ser obtidos através de uma melhor gestão desse bem capital. Muito embora, os indicadores económicos convencionais não contabilizem significativamente esses benefícios, os custos resultantes das “surpresas” dos ecossistemas podem ser bastante elevados. Daí que se torna relevante a aplicação do principio da prevenção na conservação da biodiversidade, mesmo nos casos em que não existem dados suficientes para calcular os custos e benefícios de determinada intervenção.

De acordo com as conclusões do MA, é reconhecido pelas pessoas, que a biodiversidade tem um valor intrínseco que não pode ser valorado nos termos económicos convencionais, até pela dificuldade de valoração de alguns dos serviços dos ecossistemas. Isto explica as inúmeras tomadas de decisão feita na ausência de uma análise detalhada dos custos globais, riscos e benefícios.

Conforme referência no documento de Christie, M. et al/Ecological Economics 58 (2006), 304-317, estudos revelam de que uma das abordagens à valoração dos habitats é a conexão do valor da biodiversidade ao valor da protecção das áreas naturais com elevados níveis de procura turística e de recreio. Este é pois, mais um exemplo da dificuldade de valoração da biodiversidade.
A valoração da biodiversidade por parte do Ser Humano, só será possível e conseguida se houver, em primeiro lugar, uma clarificação de conceitos de biodiversidade, ecossistema, habitat e outros de especificidade científica relevante.

PARA REFLEXÃO

Como se calcula e valora a perda de biodiversidade de uma área de paisagem, que foi sujeita a exploração dos seus recursos geológicos, tais como pedreiras para extracção de mármores, granitos, ou outros?

CURIOSIDADES

** A Floresta Amazónica sustenta aproximadamente 300 espécies de árvores por hectare que crescem em solo incrivelmente pobre em nutrientes, 50 000 espécies de insectos nas copas das árvores e 900 espécies de morcegos.

** Se for mantido o actual ritmo de desflorestação, uma grande parte das 50 a 90% das espécies vivas do Planeta que vivem nas florestas será extinta a meio deste século.

** Embora ocupem apenas 0,7% do fundo dos mares, os corais constituem o habitat de mais de 25% das espécies marinhas do planeta.

outubro 28, 2008

LINEU

o naturalista sueco Carl von Linné (ou Linnaeus, forma latina de seu sobrenome), 1707-1778. Sua principal obra, o Systema Naturae, foi publicado em 1735. A 10a edição, de 1758, é usada como ponto inicial das classificações modernas. Nela, Lineu formalizou os nomes científicos que hoje usamos, juntando o nome do gênero (por exemplo, Caesalpinia) com o da espécie (por exemplo, echinata) para designar a identidade de um organismo: Caesalpinia echinata (a árvore do pau-brasil).

outubro 12, 2008

CARTA DA TERRA

PRÍNCIPIOS E VALORES PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Respeito à Terra e à sua existência.
A proteção e a restauração da diversidade, da integridade e da beleza dos ecossistemas da Terra.
A produção, o consumo e a reprodução sustentáveis.
Respeito aos
direitos humanos, incluindo o direito a um meio ambiente propício à dignidade e ao bem-estar dos humanos.
A erradicação da pobreza.
A paz e a solução não violenta dos conflitos.
A distribuição eqüitativa dos recursos da Terra.
A participação democrática nos processos de decisão.
A igualdade de gênero.
A responsabilidade e a transparência nos processos administrativos.
A promoção e aplicação dos conhecimentos e tecnologias que facilitam o cuidado com a Terra.
A educação universal para uma vida sustentada.
Sentido da responsabilidade compartilhada, pelo bem-estar da comunidade da Terra e das gerações futuras